Com as tuas mãos de seda, tomaste a liberdade de revolver a areia e encontraste-me. Trouxeste-me como se traz uma concha da praia. Guardadinha num bolso algures nas roupas que embrulham o teu corpo e escondem o teu pudor. Estava tão sossegada, antes de tu chegares, tão perdida numa mistura de inocência e rebeldia. Pegaste em mim, obrigaste-me a crescer e a ver de outro modo o mundo á minha volta. Disseste sem palavras que precisava de me despedir de todos os grãos de areia que me envolviam. Trouxe alguns comigo, que acabaram por cair durante o tempo em que me guardaste numa mão fechada. Despiste-me de criancices . Prometeste que ias cuidar bem de mim e fizeste-me acreditar em algo de que tu próprio não estavas certo. Eu dediquei-me ao meu raptor , poli a minha superfície que tanto acariciavas e resplandeci para os teus olhos quando eles me pediam ainda mais. Um dia, esqueceste-te de me sorrir. Atrás desse, veio outro e depois outro. Agora estou quieta, silenciosa por fora, numa prateleira do teu quarto, ao lado de todo o pó que me envolve, em alternativa á areia que tão bem me protegia. Sim, olhas para mim todos os dias mas não me vês. Existe uma outra conchinha na tua mesa-de-cabeceira. Cuida dela, mima-a, sente o cheiro do sal ainda presente nas rugas perfeitas. Quando todo o seu brilho ficar baço e te lembrares de limpar o pó ás prateleiras, já estarei longe.
Fui ver o mar…
terça-feira, 15 de abril de 2008
Dunas
Escrito por Paulinha eram precisamente 21:46
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12 observações:
Tu foste ver o mar e eu fui reler o teu texto, que está muito bonito.
Congratulations :P
Beijinhos***
Reencontraste ondas de pura mágoa? Eu sim.
Obrigado :)
Beijinhos
Quem não sabe cuidar, talvez nunca aprenda. E se conseguires MESMO ir ver o mar, e esquecer o que ficou para tras...
O mar acalma mesmo quando revolto, pode ser que te dê força e tranquilidade para conseguir.
Beijinho
nem tudo o que um dia nos marcou e nos fez sorrir, dura para sempre. tudo tem um fim, seja ele triste ou não. As memorias estao sempre lá, o que não quer dizer que estejam sempre acordadas, com o tempo adormecem e ficam perdidas em prateleiras, a ganhar pó...
A: E talvez eu esteja a espera de cuidados que poderao nunca chegar. Sim, e o mar é um grande aliado. A praia mais proxima fica a uma hora de carro e, como tal, hoje fui ver o rio.
Nelinha: Não pedia que fosse eterno, pedia apenas que fosse. Bem despertas que elas estao agora.
Beijinhos
gostei das palavras que teces. tocam em memórias que todos guardamos. adicionei-te ;)
beijinhos*
Nem mais.. Bela comparação.. Quando te lembrares que eu existo.. Eu ja' num estarei aqui para ti..
Muita gente merece uma cena assim.. Enfim..
Lindo como sempre..
Ah..
Quem me dera estar a ver o mar agora.. =)
Beijinhoooo*
As pessoas tendem a esquecer-se um pouco do que tomam por garantido. Não deviam...
Beijinho*
É verdade, acabamos sempre por dar menos valor às coisas quando elas já nos pertencem. O mesmo se passa com as amizades, esquecemo-nos que é preciso trabalhar para que elas aguentem. Mas os laços fortes não se quebram facilmente!
Adorei o texto!
Beijinhos
Se nada é para sempre, porque é que o Amor haveria de ser diferente...
bjs
Sara M: Memorias partilhadas. Obrigado pela visita, sara :)
Ironia em pessoa: Mas nem sempre ha coragem para cenas assim. Nao fossemos nos humanos. E a mim. So me posso contentar com o rio.
Paddy: É mesmo assim, também sou assim. Pois nao, nao devia.
Lia: Quando o erro viaja para a amizade aí sim, é muito grave. Existe laços muito bem apertados.
Pipe Shadow: Para sempre perdia o encanto.
Beijinhos
Bela metáfora para o amor, para a solidão, para as idas e vindas dos sentimentos, das relações...das mágoas...
Se foste ver o mar...é porque já estavas pronta para o fazer. Readquire a energia que te faltava.
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