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quarta-feira, 21 de maio de 2008

Filhos da dor

É uma alma. É um alguém que ali está, mascarado de banalidade e camuflado no meio de todos os outros ninguéns que se movem com a corda das suas rotinas. A opacidade da sua tez pálida não deixa transparecer o que deveria ser, há muito, conhecido e veste-se de contrastes. Escolhe as palavras para cada situação em que pousa e deixa-se levar pelas conversas cheias de sentido nenhum. Sorri, sorri muito, mas só alguém que não Deus conhece as lágrimas que escorrem por dentro. Só e apenas ele sabe o que custa cada dia com uma dor no peito, com o coração a cair-lhe aos pés, com a garganta a explodir de tantós nós que sofre. Levanta-se todas as manhãs a arrastar os pés, porque já lhe foi retirada a alegria de suportar o peso do próprio corpo. E procura um outro alguém com os mesmos sintomas desta doença que tanto o devasta. A solidão parece tê-lo rodeado e agora tenta encontrar um pequeno estrago na cerca, já tão antiga, por onde possa escapar. No entanto, traz consigo a esperança. Trá-la á superfície quando as coisas parecem não poder piorar. Agarrada a ela, encontra-se a força. Sim, ele sabe melhor do que ninguém o que é sofrer e é o único a não se queixar. Ele, que deveria gritar quando sai para a rua, deixa isso para as adolescentes que perderam o namorado. Aprendeu a valorizar cada segundo que o relógio deixa passar. Aprendeu a amar a vida que ameaça escapar-lhe e adquiriu invisibilidade. Como ele, existem muitos mais a sofrer a sério. E nós, vamos continuar de olhos fechados?

5 observações:

Optimista disse...

A vida é uma doença. E não há antibióticos que a curem.

Manuela Peixoto disse...

cada pessoa avalia o seu problema como o pior. poucos são os que conseguem olhar mais longe e ver mais além, percebendo que há outros seres em sofrimento. infelizmente não há mesmo muito que possamos fazer!

Red disse...

empatia.

e triste que isto tenha de se ensinar, la para os lados de psicologia. nao devia ser a empatia algo presente na nossa vida? nao deveriamos sempre tentar perceber o outro, por-nos no lugar do outro, sem julgar, sem moralizar?


eu acho que deviamos. mas as pessoas sao tao vazias que e preciso ensinar-lhes estes pequenos valores.

paddy disse...

Porque às vezes é quem sofre mais que anda a animar os outros, sem ninguém lhes perguntar a eles como vão.

Pipe Shadow disse...

As experiências, as alegrias e as tristezas são relativizadas pela vida que cada um teve, têm e aspira a ter!

De certo que existirão sempre vidas muito mais tristes que as nossas, mas também haverá vida mais felizes.

Sonhar precisa-se, sempre...

bjs

 
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