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segunda-feira, 31 de março de 2008

Quem me viu e quem me vê

Sentada. ‘’A Ponte ’’, de Maria Isabel Barreno acompanha-me. Tento concentrar-me nas combinações de sílabas e mas enquanto o cérebro as junta numa leitura mental, sou baleada por olhares. Olhares apreciadores que não se revelam no meio de olhares postos no que trago no colo. Que mal tem uma jovem a ler numa estação de comboios? Já quase estava concentrada quando oiço conversas paralelas atrás de mim. Um senhora fala ao telemóvel docemente e quando finalmente desliga a chamada reconta-a em forma de troça ao seu acompanhante. A falsidade está em todo o lado, penso. Olho então para o relógio que não está no pulso e que também serve para fazer chamadas. Está na hora de fechar o meu livro e de o guardar na mochila. ‘’Vai entrar na linha número 2 o comboio precedente de Tomar com destino a Lisboa - Santa Apolónia. Efectua paragens em Alverca e Lisboa – Oriente. ‘’ .Está na minha hora. Subo o quase invisível degrau e aconchego-me num pequeno lugar de maneira a poder ficar de frente para a viagem e ao pé da janela. Para a frente é que é o caminho e nunca deixando de observar. Reparo nas distâncias que se estabelecem frequentemente entre pessoas desconhecidas. Num comboio meio vazio (ou meio cheio) como este não existe ninguém acompanhado. Ou talvez exista. Acompanhados pelos seus pensamentos, reflectindo sobre o mal da sociedade ou simplesmente sobre o detergente que irão comprar para lavar o chão. Várias etnias, várias nacionalidades, várias faixas etárias. Porém, todas na mesma direcção. Ilustro assim o conceito de ‘’Todos diferentes, todos iguais. ’’ .O comboio abranda. Os mais prudentes já estão diante da porta de saída quando se ouve ‘’Próxima paragem: Alverca. ’’ . Outros acabaram de se levantar no preciso momento. Ainda tenho alguns minutos. Penso em voltar á minha leitura mas não me apetece. Estou tentada a ficar aqui, a debruçar-me sobre o rumo de todos os passageiros e é o que faço. Dois lugares ao meu lado uma senhora chinesa já fechou os olhos. Do outro lado, alguém me olha indiscretamente mas não quero reparar. Decido perspectivar o mundo lá fora, que também precisa de mim. Passo por uma zona industrial e agonia-me a ideia de saber que preciso de serviços que tanto poluem o ar que vai direito todos os dias aos nossos pulmões. E cá dentro passa o revisor. Farda larga, maduro, provavelmente experiente, O bilhete é apenas solicitado a um senhor que por acaso não tem o melhor aspecto do mundo. Discriminação? Coisas da minha cabeça? Não quero saber. Olho novamente para o relógio, concluindo que devo estar a chegar ao meu destino. Confirmo-o quando vejo que estou a passar por Moscavide, onde avisto um casal de namorados em pura demonstração amorosa. Sorrio por eles e por mim. Que todos os males do mundo fossem esses.
Vou andando até á porta quando finalmente escuto ‘’Próxima paragem: Oriente ’’ . Tomo então consciência dos rascunhos mentais que já fiz em apenas quinze minutos. Ordeno-os e decido que os vou contar ao papel. Abre-se a porta e alguém me espera lá fora. Penso nas pessoas á minha volta. A elas, alguém as esperará?
Desço as escadas e lá estás tu. Serena, a ler um livro, que sei que me vais mostrar quando me sentar ao teu lado. Ainda não me viste. Deixo a minha porta entreaberta para as reflexões particulares. Agora és tu em primeiro lugar.

10 observações:

pzs disse...

Uma simples viagem de comboio.
E no entanto um mundo a teus olhos...

Gostei desta e das outras que aqui li.

Parabéns
obrigado pelas viagens...

Anónimo disse...

Simplesmente lindo..
Mas demonstra bem o que se pensa numa viagem de autocarro ou comboio.. =)
Beijinhooooo**

paddy disse...

Adorei :)

Também já reparei na distância em que as pessoas se sentam umas das outras, ninguém confia em ninguém.

Beijinho*

Paulinha disse...

Zé Manel: Porque tudoé diferente quando se mudam as perspectivas. Viagens mentais que se fazem instantaneamente q ue nos enfeitam a alma.

Ironia em Pessoa: Pois é, as refexões de cada passagem.

Paddy: Pois nãoe o que me irrita mesmo é quando estáum autocarrocheio e as pessoas sentam-sedolado de dentro para poderem ficar sozinhas enquanto que eãs outras têm de ir em pé :/


Obrigado :P
Beijinhos

Mafalda disse...

E assim, de forma brilhante, se transforma uma viagem de comboio num magnífico texto.

Beijinhos e parabéns*

paddy disse...

Meu Deus, nunca vi disso acontecer, é mesmo horrível =/ Eu às vezes quando está cheio e vou ao lado de alguém, quando passam a haver lugares livres nem mudo de lugar pra pessoa não pensar que me importo de ir ao pé dela. Se calhar devia...

Pipe Shadow disse...

Essa pequena cabeça não pára e continua a dar-nos beos momentos de leitura...

Pareabéns e bjs

Paulinha disse...

Mafalda: É, assim de um momento para o outro. Como tudo na vida :)

Paddy: Nunca viste? Eu deparo-me com isso todos os dias. Mais, ontem vi uma senhora com uma criança e quem estava nos lugares interiores não foi capaz de se levantar para dar o lugar. Ate havia um senhor que estava sozinho e não se desviou. Hoje uma senhora, assim que avistou lugares vazios, saiu logo de ao pé de onde estava para ficar sozinha. Não devias nada, isso fica tão mal. Temos de ser todos amigos. ^^

Pipe Shadow: Quando parar, eu páro com ela :)


Beijinhos

Susana Júlio disse...

As viagens físicas levam-nos tantas e tantas vezes a fazer imensas viagens pelo nosso mundo interior. Libertamos extensivamente os nossos pensamentos e deixamo-los irem à solta de encontro a uma espécie de análise e dedução da realidade. As viagens de comboio são propícias a isso mesmo. E à companhia amiga de um livro, d eum bom livro...


:))

Manuela Peixoto disse...

porque sabe tão bem ver o mundo lá fora...

 
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