São só sombras. Como uma vela apagada sem fósforos nem isqueiro. O fogo espontâneo que existe não a acende, apenas queima. Dói. Arde. Magoa. E a vela, permanece ali, sem vestígios de cera derretida. Imortal mas só. Vivemos na sombra. Sem pingos de reflexão ou crítica. Aceitam o que lhes regem, são escravos de seres superiores. Ès escravo do teu professor ou do teu chefe? Trabalhas por conta própria? Óptimo, és escravo do estado. Elegem na democracia o derrubamento do direito do homem que diz “ Todos os homens são iguais.” .São explorados para o luxo de alguém. Os outros mergulham na piscina que construíram com bocados da miséria do povo. Vocês fecham a torneira enquanto se ensaboam para poderem pagar a factura de água no final do mês. Vão revoltar – se ? Digam – me, o que vão fazer? Organizar uma manifestação com uma ou duas centenas de pessoas que estão a perder um dia de trabalho que tanta falta lhes faz enquanto os mestres da corrupção se chateiam com o barulho que fazem e fecham apenas a janela á prova de som? E vocês? Gastam saliva de que vão precisar para mastigar os alimentos que vos custam tanto a pagar e a sola dos sapatos que compraram na loja dos trezentos ?
E eles chegam a casa, nada estoirados, e masturbam – se com o vosso cansaço.
Não têm escolha, não é ? Manifestam – se porque nada mais podem fazer e nem uma gota vêm de recompensa. Ouvem as notícias e as boas não tem lugar. Não existem. Os políticos falam ás prestações e sabem que falam de vocês. Fazem parte das péssimas estatísticas e dos números arredondados. Também vocês o foram. Esmagados de ambos os lados planos até se tornarem numa superfície esférica. Agora, rebolam como uma avalanche. Vão acumulando dívidas e pesos na consciência. Ainda podem acender a luz quando chegarem a casa, fartos de mais um dia de trabalho. Ainda não vos cortaram. Ainda.
Água, terra e ar. Fogo para iluminar, não existe. Só queima. Queimam na pele as facturas acumuladas na gaveta encravada . Sabem que não é escuro. È ausência de luz.
São os outros. Vós, as sombras.
sexta-feira, 18 de abril de 2008
O grito de um, a queixa de muitos
Escrito por Paulinha eram precisamente 22:20
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11 observações:
Pois é...quando acabamos por viver em sociedade, condicionados ou não por essa escolha que herdamos sem questionar, acabamos por entrar nesse marasmo aflitivo e por vezes ou muitas vezes contestatário das coisas que vão e estão realmente mal...que fazer?! Há muito para fazer na realidade...mas as forças ou os perfis das pessoas desta raça ou desta espécie, já não são as mesmas daqueles que fizeram outras revoluções...parece-me a mim...
Chegaste a ver o filme INTO THE WILD? Ou a ler o livro? Acho que ias gostar...vai na onda deste teu texto magnífico.
Um beijo em fio aqui da Teia.
Somos todos a sombra do que gostariamos de ser, tentamos em vão mudar, mas mudar o quê? Temos um milhão de pessoas a dizer que não há nada a fazer...e por muito que se tente fazer, temos outros a desfazer. Deixamo-nos ir na corrente, sempre á espera de dias melhores. Será que chegarão? Eu...só espero que sim.
Beijinho
Su: Uma sociedade imperfeita e cheia de lacunas. Segui o teu conselho. Acabei de ver há pouco o filme Into the wild. E sim, adorei. Agora só falta o livro.
A: Mesmo com um aglomerado de pessoas dispostas a fazer tudo, o que são elas comparadas com os poderes que nos regem? Estamos encurralados. Resta (sobre)viver.
Beijinhos
Para combater uma sociedade desiquilibrada, tens de primeiro fazer parte dela!
Nunca te esqueças disso...
bjs
PS: A OST do "Into the Wild" faz justiça ao filme. Ouve.
As injustiças sociais sempre existiram e vivemos numa ilusão se pensarmos que algum dia poderão deixar de existir. Podemos melhorá-la, sim, mas eliminá-la parece-me impossível, apesar de ser triste e, mais uma vez, injusto.
E que bem escrito. E não conseguimos a liberdade por que lutámos porque todos acham que está tudo mal, mas ninguém faz nada...
Não quero ser adulto. Não quero ver a minha vida impedida por uma tirania auto-imposta. Porque se fossemos todos como eu, isto não passava de hoje. Podia não ficar melhor, mas assim também não é nada.
Gostei de ler o teu texto...reflete sim o mundo que vivemos!:SSSS
Beijinhos
Pipe shadow: E se me integrar de tal modo que deixe de me fazer comichão?
Por acaso a primeira coisa que fiz quando acabei de ver o filme foi arranjar a banda sonora. Sim, faz realmente.
Lia: Será que estamos a pensar mal? Que estamos a ser pessimistas? Que estamos a cruzar os braços?
Insert name here:
Vemo-nos um bocado limitados. Também não quero crescer. Quando era criancinha perguntei a chorar, á minha mãe, se tinha mesmo de crescer, se não podia ficar criança para sempre. Lembro-me como se fosse ontem. Hoje não choro mas grito por dentro.
Sandra: Pois é. Infelizmente :/
Beijinhos
Vivemos num mundo de cão.
Só vale a pena viver por alguns motivos.
Continua a escrever, sim?
Beijinhos***
Ainda bem que gostaste...o livro tem um seguimento mais completo do que realmente se passou...acho que vais gostar. Tem passagens lindas.
Um beijo grande.
Mafalda: E somos um nada sem sentido algum que descobre motivos para se viver nas coisas que parecem valer a pena.
Su: Depois do novo livro de Alice Sebold será a minha próxima compra.
Beijinhos
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