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domingo, 4 de maio de 2008

Paro, escuto e olho

As palavras ressoam-me como tambores. Ordeno-as, tentando atribuir-lhes um qualquer significado que não é o meu. Desta vez, não quero o egoísmo de uma reflexão pessoal. Quero uma miscelânea de temas, um turbilhão de emoções num pedaço de papel. Quero intervenções propositadas, entrelinhas deduzíveis e um assunto riscado de sentido. E começo, deslizo e faço deslizar. Noto então que o papel já não está em branco. As linhas proporcionam-se inversamente com as palavras cheias de sentimento casual. Enquanto vejo e-mails, oiço o teu nome quase gritado vindo de mim mesma. Chamas-me mas não me importo. Tanto faz, continua. Um dia os teus olhos irão perder o brilho quando tentar espelhar-me neles. Um outro dia, o teu sorriso, de que agora me alimento, irá deixar de me fazer sorrir com ele. Noutro qualquer dia, a tua presença irá ser notada mas a tua ausência nada sentida. E depois de todos estes dias, nasce o dia em que sais dos meus sentidos. Não vais estar mais nos meus olhos, vou deixar de te ver em todos os cantos e autocarros cheios. Não vais estar mais no meu olfacto, vou deixar de sentir o teu aroma que vem com a brisa que me leva. Não vais estar mais no meu paladar, vou deixar de saborear aquele pequeno-almoço que tomámos juntos. Não vais estar mais no meu ouvido, vou deixar de te sentir nos ritmos mais melancólicos. E não vais estar mais nas minhas mãos. Um dia, vou deixar de escrever sobre ti. Porque nesse mesmo dia, vais parar de dançar na minha mente em que agora tanto espaço ocupas. Entraste, hás-de sair. E releio o que escrevinhei. Foi mais uma reflexão egoísta, mais uma queixa de mim mesma, mais um desabafo preso. Um dia, deixará de o ser. E aí sentirei a tua falta .
Agora, finalizo. Pelos olhares que me deitas todos os dias em segredo, mereces todas estas linhas. E, ao mesmo tempo, não mereces nada.

Aqui cheira a prémio :)


Um fim de semana começado da melhor maneira. Obrigado Su, pelas palavras perspicazes e pela doçura nos comentários sempre tão poéticos.

E obrigado pelo significado do prémio. O triplo prémio.
Nomeio então:
Transparência
Idónea Ilaqueação
Palavras e(m) silêncio
Rodopia
Ironicamente falando
Soltando pensamentos
Tudo e nada

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Precipitação

Está a chover. Chuva de lágrimas secas que rolam até ao chão impermeável. Aqui, na troposfera, chove bastante. Uns dias são aguaceiros de desilusões, outros torrencialidades de tempestades revoltadas. Molho os campos de trigo e as casas dos Homens. Inundo automóveis e estabelecimentos. Há quem reclame comigo e barafuste para o ar, como se soubessem que os posso ouvir. Tapo a luz que ilumina os seus corpos suados, impeço que ganhem alguma cor para se gabarem aos amigos. Esquecem-se que quando o céu está nublado também conseguem bronzear-se, só não o sentem. Do outro lado da vida alimento-lhes o estômago. Enquanto lutam com chapéus de chuva, eu rego campos de cenouras e beterrabas. Os agricultores agradam-me. Para eles, sou uma espécie de bênção, sem mérito. O mérito, dão-no a um ser superior que julgam comandar as suas vidas. Ás vezes, há quem tente sobrepor-me, voar acima de mim. Vêm-me a grande altitude e atravessam-me. Exploram a minha matéria. Depois, concluem que não sou mais que água condensada. Para eles, sou vazia.
Sou uma nuvem que flutua em cima de nada mas que observa tudo.
Sou uma nuvem que torna o céu cinzento mas também o enfeita.
Sou uma nuvem que chove bastante, mesmo enquanto o sol parece brilhar por trás. E, aí, nasce o arco-íris.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Um outro olhar sobre o mundo.

Olho para ti. Queres? Vamos.
Primeiro os hambúrgueres e as batatas fritas. A seguir as bebidas e depois nós. Passamos ambas as pernas para o lado de lá. Agora estamos sentadas a uma dezena de metros de altura do solo num pedaço de cimento. Enchemos o estômago que sabemos que pode ser inútil a qualquer momento. A última ceia, foi o que lhe chamámos.
Lá em baixo as pessoas estão atarefadas com as suas vidas e toda a tralha que enche aqueles cérebros poluídos. Nós somos livres. Respiramos o ar que não chega aos outros, aos escravos das agendas e dos relógios. Cruzamos as pernas e damos as mãos em telepatia. Protegemo-nos e por instantes somos apenas um corpo preso num trapézio que não cai. Sorrimos. A emoção e a adrenalina tomam conta de nós e fazem-nos esquecer da dor que carregamos quase sempre nos ombros. O coração salta do peito e rende-se á amizade que nos une. Somos um anjo artificial criado pelas mãos de ninguém. Por um lado, queremos ser invisíveis. Por outro, queremos mostrar a irreverência que nos separa do resto do mundo. As dentadas heterogéneas sabem-nos a força da gravidade. Comemos mas não nos alimentamos. Aproveito o momento para decorar tudo o que vejo, já que sei que não vamos repetir. Banalizaríamos todo este esplendor se o fizéssemos. Fomos vistas. Um grupo de rapazes numa esplanada decide então acenar. Acenamos também. Fazemos disso mais um motivo para acentuar o riso que não nos larga. A refeição vai ocupando cada vez mais espaço cá dentro e por fora passamos a ser apenas nós. Apanhamos o lixo que não voou. Descemos á Terra. Por uns momentos, vimos o mundo de cima. Por uns breves momentos, ele pertenceu-nos. Depois passámos para o outro lado das grades que só nos protegiam as costas. Estivemos por conta do destino e sobrevivemos. Contigo não se morre. Nunca por dentro.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Um embrulho



O primeiro orgulho deste 'estabelecimento'! Merecido? Sabe bem pensar que sim :)

Obrigado Ironia em pessoa. Obrigado Rodopia.


Redirecciono...

Transparência
Soltando pensamentos
Teia de Ariana
Idónea Ilaqueação

De AllenGirl para MJ

(Não foram 10 mas foi metade, já que o prémio foi a dobrar... Não é grave :P )

sexta-feira, 18 de abril de 2008

O grito de um, a queixa de muitos

São só sombras. Como uma vela apagada sem fósforos nem isqueiro. O fogo espontâneo que existe não a acende, apenas queima. Dói. Arde. Magoa. E a vela, permanece ali, sem vestígios de cera derretida. Imortal mas só. Vivemos na sombra. Sem pingos de reflexão ou crítica. Aceitam o que lhes regem, são escravos de seres superiores. Ès escravo do teu professor ou do teu chefe? Trabalhas por conta própria? Óptimo, és escravo do estado. Elegem na democracia o derrubamento do direito do homem que diz “ Todos os homens são iguais.” .São explorados para o luxo de alguém. Os outros mergulham na piscina que construíram com bocados da miséria do povo. Vocês fecham a torneira enquanto se ensaboam para poderem pagar a factura de água no final do mês. Vão revoltar – se ? Digam – me, o que vão fazer? Organizar uma manifestação com uma ou duas centenas de pessoas que estão a perder um dia de trabalho que tanta falta lhes faz enquanto os mestres da corrupção se chateiam com o barulho que fazem e fecham apenas a janela á prova de som? E vocês? Gastam saliva de que vão precisar para mastigar os alimentos que vos custam tanto a pagar e a sola dos sapatos que compraram na loja dos trezentos ?
E eles chegam a casa, nada estoirados, e masturbam – se com o vosso cansaço.
Não têm escolha, não é ? Manifestam – se porque nada mais podem fazer e nem uma gota vêm de recompensa. Ouvem as notícias e as boas não tem lugar. Não existem. Os políticos falam ás prestações e sabem que falam de vocês. Fazem parte das péssimas estatísticas e dos números arredondados. Também vocês o foram. Esmagados de ambos os lados planos até se tornarem numa superfície esférica. Agora, rebolam como uma avalanche. Vão acumulando dívidas e pesos na consciência. Ainda podem acender a luz quando chegarem a casa, fartos de mais um dia de trabalho. Ainda não vos cortaram. Ainda.
Água, terra e ar. Fogo para iluminar, não existe. Só queima. Queimam na pele as facturas acumuladas na gaveta encravada . Sabem que não é escuro. È ausência de luz.
São os outros. Vós, as sombras.

 
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