terça-feira, 28 de outubro de 2008
O silêncio
Escrito por Paulinha eram precisamente 17:55 105 observações
domingo, 13 de julho de 2008
Desafios, prémios e outras coisas bonitas
A minha ausência já se nota mas nem assim deixo de visitar os vossos cantinhos- que
me acolhem tão bem!
Em primeiro lugar, vou responder a um desafio vindo da *Star* in B* flat, que consiste em enumerar 8 coisas que quero fazer antes de morrer e escolher 8 blogs a quem passar o desafio. Cá vão:
1- Publicar um livro, uma colectânea dos meus 'devaneios mentais' e dedicá-lo á Patrícia.
2-Viajar sozinha para um lugar qualquer onde pudesse observar e reflectir, reflectir muito.
3- Matar um pedófilo.
4- Formar-me, arranjar emprego e ter tempo para tirar psicologia em simultâneo.
5- Dar um mergulho ao nascer do sol.
6- Comprar uma casa com vista para o mar.
7- Encontrar aquele alguém com quem possa expressar-me e sentir-me completa.
8- Agradecer, de alguma forma, á minha família que sempre esteve ao meu lado.
Bom, acho que completei a ideia. Não me sinto no direito de nomear 8 blogs, já fui desafiada há tanto tempo. Mas deixo em aberto para alguém que passe por aqui e ainda não o tenha feito. Espero que aceitem.
E agora o prémio 'friends' vindo do blog da paddy:
Obrigado pela atenção. O teu blog é daqueles que não deixo de visitar, há sempre um sorriso ou gargalhada para saborear cada vez que lá vou.
Passo-o á Patrícia ( porque sei que adoras a série, mesmo que tenhas de a ver sentada no chão xD), á Su, á Lia, á Mafalda e á Ironia.
Escrito por Paulinha eram precisamente 18:57 19 observações
quinta-feira, 19 de junho de 2008
Cicatrizes
Solta um leve suspiro que o silêncio da noite abafa. Agita-se. Caminha num beco escuro, nas ruas de uma cidade agitada, entre drogados e mulheres da vida. Sente o cheiro a desodorizante barato misturado com o cansaço de um dia de trabalho. O odor entra-lhe pelas narinas e aloja-se no cérebro, como mais um testemunho da sua própria existência. Escurece cada vez mais. O medo apodera-se daquela estação de comboios e senta-se mesmo ao seu lado. Ela põe-se a pensar, faz um balanço quase inevitável daquilo que é a sua vida. A angústia tomou conta da sua própria alma. Com ela, vieram os comprimidos que não podem faltar na mala e na mesa de cabeceira.’’Só mais um não fará mal...’’ . O comboio parece ter-se atrasado, como sempre se atrasou toda a sua felicidade. Até que ponto necessita de continuar a resistir? Depois de tanto sofrimento, quem irá um dia dizer-lhe que valeu a pena? Acaba de ficar sozinha. O medo, agora, é apenas de si própria. O comboio não chega. Desce um degrau, talvez o mais longo que já desceu durante toda a sua longa jornada. Apaixona-se por aquele piso, o último relevo que os seus pés irão testemunhar. Pés, costas, agora cabeça. O céu não podia estar mais escuro. Despede-se das estrelas. Ouve um estrondoso apito, ao fundo. Com ele, a luz mais brilhante que alguma vez viu. A felicidade, agora que apanhou o comboio da morte, parece chamá-la.
Um sobressalto. O suor ainda lhe escorre pelo corpo. Abre energicamente as pálperas e dá um impulso na cama. Já passou, foi só um sonho. Relaxa. Volta-se para o outro lado, no seio de lençóis que aparentam abraçá-la.
‘’Para quê ter medo dos sonhos, se o verdadeiro pesadelo está á sua espera quando acorda?’’
Adormece.
Escrito por Paulinha eram precisamente 18:41 13 observações
terça-feira, 17 de junho de 2008
Copy paste
Onde pára a ciência? Onde estão os limites para a tecnologia? Fará sentido falar em barreiras para o infinito?
Cada vez mais, o Homem e apenas o Homem tem vindo a remexer em todas as peças deste jogo que é a Natureza. E tudo parece fazer sentido até ao momento em que algo corre mal. Tudo parece melhorar até ao instante em que destruímos a nossa própria matéria-prima.
E o que são, então, os limites? Diz-se que a nossa liberdade acaba onde começa do outro. Não estaremos a ir para lá da filosofia e dos valores morais quando falamos em clonagem?E, agora, podemos colocar-nos sob duas perspectivas: Escolhemos o caminho do optmismo e afirmamos que a clonagem pode ser útil para ultrapassar os problemas de infertilidade de alguns casais, curar doenças, melhorar o sucesso de transplantes de órgãos ou até mesmo tornar um outro alguém genticamente igual a nós mesmos; ou interpretamos tudo isto com pessimismo, já que não deve ser assim tão benéfico diminuir a variabilidade genética,acabar com valores morais e sermos colocados no mundo a partir de um grupo de cientistas que mal iremos conhecer , com alguma intenção. Para ilustrar, temos o exemplo da clonagem de soldados para a guerra. Que personalidade teria alguém sem bases educativas e com destino traçado antes de existir?
E, como sempre, reflectimos. Paramos para pensar e somos obrigados a decidir em que perspectiva nos colocamos sobre um tema a que nos coube explorar. Não poderá existir um meio-termo?A clonagem pode ser útil, sim, para fins terapêuticos. É moralmente aceite quando utilizada para melhorar a nossa sobrevivência, para diminuir o sofrimento, para criar um melhor estilo de vida, como toda a tecnologia nos permitiu até agora. Porém, a clonagem passa para o ‘’lado negro’’,quando é usada para o rejuvenescimento ou para nos disponibilizar um ‘’catálogo’’ de escolha de seres humanos.
Porque existem peças de teatro em que devemos ser apenas espectadores. A Natureza é uma delas.
Escrito por Paulinha eram precisamente 21:16 9 observações
sexta-feira, 30 de maio de 2008
Pretérito imperfeito
Um rio. Meia dúzia de barcos, um cais, uma via-férrea. Gentes. Repousam o corpo, sentadas. Varrem os problemas com uma ginástica mental que envolve todo este ambiente. Evitam agonias, afastam contrariedades e refugiam-se neste jardim. É urgente viver.
Roubaste-me a vida, sabes? Arrancaste pedaços do meu coração com crueldade, guardaste-os e não mais mos devolveste. Privaste-me de sonhar porque abafaste toda a minha reflexão. Preciso de pensar, de emergir no meu próprio ser e não o faço porque lá estás. E agora, quem sou eu? Olho á minha volta, nada se resume a um sentido concreto. A subjectividade apoderou-se do mundo. Transformou casas em modos de viver, estradas em caminhos do destino e pontes em ligações afectivas. Transformou-te a ti no meu herói, no meu sorriso, no meu olhar, no meu ser, e, não conseguindo decidir-se, deciciu tornar-te no meu lado negro, na minha melancolia, no meu grito de alma. Vejo-me mergulhada num rio sem corrente alguma, estagnada de qualquer rumo. Consigo sentir-te a puxar-me para baixo, a quereres que fique, a impedir que me salve. Mas eu vou. Nado, luto, encontro a foz deste infindável troço de água suja. Chega de ti, de um nós que já tornaste tão feio, que já me cansa só de saber que existe. Existe? Chega de adormecer com o apoio da tua mão que parece ter desaparecido sempre que acordo.
É a minha vez de varrer os problemas aqui, neste jardim. E o meu problema sempre foste tu. Sempre tu. Foste tu.
Escrito por Paulinha eram precisamente 23:15 12 observações
quarta-feira, 21 de maio de 2008
Filhos da dor
É uma alma. É um alguém que ali está, mascarado de banalidade e camuflado no meio de todos os outros ninguéns que se movem com a corda das suas rotinas. A opacidade da sua tez pálida não deixa transparecer o que deveria ser, há muito, conhecido e veste-se de contrastes. Escolhe as palavras para cada situação em que pousa e deixa-se levar pelas conversas cheias de sentido nenhum. Sorri, sorri muito, mas só alguém que não Deus conhece as lágrimas que escorrem por dentro. Só e apenas ele sabe o que custa cada dia com uma dor no peito, com o coração a cair-lhe aos pés, com a garganta a explodir de tantós nós que sofre. Levanta-se todas as manhãs a arrastar os pés, porque já lhe foi retirada a alegria de suportar o peso do próprio corpo. E procura um outro alguém com os mesmos sintomas desta doença que tanto o devasta. A solidão parece tê-lo rodeado e agora tenta encontrar um pequeno estrago na cerca, já tão antiga, por onde possa escapar. No entanto, traz consigo a esperança. Trá-la á superfície quando as coisas parecem não poder piorar. Agarrada a ela, encontra-se a força. Sim, ele sabe melhor do que ninguém o que é sofrer e é o único a não se queixar. Ele, que deveria gritar quando sai para a rua, deixa isso para as adolescentes que perderam o namorado. Aprendeu a valorizar cada segundo que o relógio deixa passar. Aprendeu a amar a vida que ameaça escapar-lhe e adquiriu invisibilidade. Como ele, existem muitos mais a sofrer a sério. E nós, vamos continuar de olhos fechados?
Escrito por Paulinha eram precisamente 19:05 5 observações
domingo, 4 de maio de 2008
Paro, escuto e olho
As palavras ressoam-me como tambores. Ordeno-as, tentando atribuir-lhes um qualquer significado que não é o meu. Desta vez, não quero o egoísmo de uma reflexão pessoal. Quero uma miscelânea de temas, um turbilhão de emoções num pedaço de papel. Quero intervenções propositadas, entrelinhas deduzíveis e um assunto riscado de sentido. E começo, deslizo e faço deslizar. Noto então que o papel já não está em branco. As linhas proporcionam-se inversamente com as palavras cheias de sentimento casual. Enquanto vejo e-mails, oiço o teu nome quase gritado vindo de mim mesma. Chamas-me mas não me importo. Tanto faz, continua. Um dia os teus olhos irão perder o brilho quando tentar espelhar-me neles. Um outro dia, o teu sorriso, de que agora me alimento, irá deixar de me fazer sorrir com ele. Noutro qualquer dia, a tua presença irá ser notada mas a tua ausência nada sentida. E depois de todos estes dias, nasce o dia em que sais dos meus sentidos. Não vais estar mais nos meus olhos, vou deixar de te ver em todos os cantos e autocarros cheios. Não vais estar mais no meu olfacto, vou deixar de sentir o teu aroma que vem com a brisa que me leva. Não vais estar mais no meu paladar, vou deixar de saborear aquele pequeno-almoço que tomámos juntos. Não vais estar mais no meu ouvido, vou deixar de te sentir nos ritmos mais melancólicos. E não vais estar mais nas minhas mãos. Um dia, vou deixar de escrever sobre ti. Porque nesse mesmo dia, vais parar de dançar na minha mente em que agora tanto espaço ocupas. Entraste, hás-de sair. E releio o que escrevinhei. Foi mais uma reflexão egoísta, mais uma queixa de mim mesma, mais um desabafo preso. Um dia, deixará de o ser. E aí sentirei a tua falta .
Agora, finalizo. Pelos olhares que me deitas todos os dias em segredo, mereces todas estas linhas. E, ao mesmo tempo, não mereces nada.
Escrito por Paulinha eram precisamente 20:43 13 observações
Aqui cheira a prémio :)

Um fim de semana começado da melhor maneira. Obrigado Su, pelas palavras perspicazes e pela doçura nos comentários sempre tão poéticos.
E obrigado pelo significado do prémio. O triplo prémio.
Escrito por Paulinha eram precisamente 20:18 8 observações
quarta-feira, 30 de abril de 2008
Precipitação
Está a chover. Chuva de lágrimas secas que rolam até ao chão impermeável. Aqui, na troposfera, chove bastante. Uns dias são aguaceiros de desilusões, outros torrencialidades de tempestades revoltadas. Molho os campos de trigo e as casas dos Homens. Inundo automóveis e estabelecimentos. Há quem reclame comigo e barafuste para o ar, como se soubessem que os posso ouvir. Tapo a luz que ilumina os seus corpos suados, impeço que ganhem alguma cor para se gabarem aos amigos. Esquecem-se que quando o céu está nublado também conseguem bronzear-se, só não o sentem. Do outro lado da vida alimento-lhes o estômago. Enquanto lutam com chapéus de chuva, eu rego campos de cenouras e beterrabas. Os agricultores agradam-me. Para eles, sou uma espécie de bênção, sem mérito. O mérito, dão-no a um ser superior que julgam comandar as suas vidas. Ás vezes, há quem tente sobrepor-me, voar acima de mim. Vêm-me a grande altitude e atravessam-me. Exploram a minha matéria. Depois, concluem que não sou mais que água condensada. Para eles, sou vazia.
Sou uma nuvem que flutua em cima de nada mas que observa tudo.
Sou uma nuvem que torna o céu cinzento mas também o enfeita.
Sou uma nuvem que chove bastante, mesmo enquanto o sol parece brilhar por trás. E, aí, nasce o arco-íris.
Escrito por Paulinha eram precisamente 15:32 15 observações
sexta-feira, 25 de abril de 2008
Um outro olhar sobre o mundo.
Olho para ti. Queres? Vamos.
Primeiro os hambúrgueres e as batatas fritas. A seguir as bebidas e depois nós. Passamos ambas as pernas para o lado de lá. Agora estamos sentadas a uma dezena de metros de altura do solo num pedaço de cimento. Enchemos o estômago que sabemos que pode ser inútil a qualquer momento. A última ceia, foi o que lhe chamámos.
Lá em baixo as pessoas estão atarefadas com as suas vidas e toda a tralha que enche aqueles cérebros poluídos. Nós somos livres. Respiramos o ar que não chega aos outros, aos escravos das agendas e dos relógios. Cruzamos as pernas e damos as mãos em telepatia. Protegemo-nos e por instantes somos apenas um corpo preso num trapézio que não cai. Sorrimos. A emoção e a adrenalina tomam conta de nós e fazem-nos esquecer da dor que carregamos quase sempre nos ombros. O coração salta do peito e rende-se á amizade que nos une. Somos um anjo artificial criado pelas mãos de ninguém. Por um lado, queremos ser invisíveis. Por outro, queremos mostrar a irreverência que nos separa do resto do mundo. As dentadas heterogéneas sabem-nos a força da gravidade. Comemos mas não nos alimentamos. Aproveito o momento para decorar tudo o que vejo, já que sei que não vamos repetir. Banalizaríamos todo este esplendor se o fizéssemos. Fomos vistas. Um grupo de rapazes numa esplanada decide então acenar. Acenamos também. Fazemos disso mais um motivo para acentuar o riso que não nos larga. A refeição vai ocupando cada vez mais espaço cá dentro e por fora passamos a ser apenas nós. Apanhamos o lixo que não voou. Descemos á Terra. Por uns momentos, vimos o mundo de cima. Por uns breves momentos, ele pertenceu-nos. Depois passámos para o outro lado das grades que só nos protegiam as costas. Estivemos por conta do destino e sobrevivemos. Contigo não se morre. Nunca por dentro.
Escrito por Paulinha eram precisamente 22:52 10 observações
quinta-feira, 24 de abril de 2008
Um embrulho
Redirecciono...
Transparência
Soltando pensamentos
Teia de Ariana
Idónea Ilaqueação
De AllenGirl para MJ
(Não foram 10 mas foi metade, já que o prémio foi a dobrar... Não é grave :P )
Escrito por Paulinha eram precisamente 20:48 8 observações
sexta-feira, 18 de abril de 2008
O grito de um, a queixa de muitos
São só sombras. Como uma vela apagada sem fósforos nem isqueiro. O fogo espontâneo que existe não a acende, apenas queima. Dói. Arde. Magoa. E a vela, permanece ali, sem vestígios de cera derretida. Imortal mas só. Vivemos na sombra. Sem pingos de reflexão ou crítica. Aceitam o que lhes regem, são escravos de seres superiores. Ès escravo do teu professor ou do teu chefe? Trabalhas por conta própria? Óptimo, és escravo do estado. Elegem na democracia o derrubamento do direito do homem que diz “ Todos os homens são iguais.” .São explorados para o luxo de alguém. Os outros mergulham na piscina que construíram com bocados da miséria do povo. Vocês fecham a torneira enquanto se ensaboam para poderem pagar a factura de água no final do mês. Vão revoltar – se ? Digam – me, o que vão fazer? Organizar uma manifestação com uma ou duas centenas de pessoas que estão a perder um dia de trabalho que tanta falta lhes faz enquanto os mestres da corrupção se chateiam com o barulho que fazem e fecham apenas a janela á prova de som? E vocês? Gastam saliva de que vão precisar para mastigar os alimentos que vos custam tanto a pagar e a sola dos sapatos que compraram na loja dos trezentos ?
E eles chegam a casa, nada estoirados, e masturbam – se com o vosso cansaço.
Não têm escolha, não é ? Manifestam – se porque nada mais podem fazer e nem uma gota vêm de recompensa. Ouvem as notícias e as boas não tem lugar. Não existem. Os políticos falam ás prestações e sabem que falam de vocês. Fazem parte das péssimas estatísticas e dos números arredondados. Também vocês o foram. Esmagados de ambos os lados planos até se tornarem numa superfície esférica. Agora, rebolam como uma avalanche. Vão acumulando dívidas e pesos na consciência. Ainda podem acender a luz quando chegarem a casa, fartos de mais um dia de trabalho. Ainda não vos cortaram. Ainda.
Água, terra e ar. Fogo para iluminar, não existe. Só queima. Queimam na pele as facturas acumuladas na gaveta encravada . Sabem que não é escuro. È ausência de luz.
São os outros. Vós, as sombras.
Escrito por Paulinha eram precisamente 22:20 11 observações
terça-feira, 15 de abril de 2008
Dunas
Com as tuas mãos de seda, tomaste a liberdade de revolver a areia e encontraste-me. Trouxeste-me como se traz uma concha da praia. Guardadinha num bolso algures nas roupas que embrulham o teu corpo e escondem o teu pudor. Estava tão sossegada, antes de tu chegares, tão perdida numa mistura de inocência e rebeldia. Pegaste em mim, obrigaste-me a crescer e a ver de outro modo o mundo á minha volta. Disseste sem palavras que precisava de me despedir de todos os grãos de areia que me envolviam. Trouxe alguns comigo, que acabaram por cair durante o tempo em que me guardaste numa mão fechada. Despiste-me de criancices . Prometeste que ias cuidar bem de mim e fizeste-me acreditar em algo de que tu próprio não estavas certo. Eu dediquei-me ao meu raptor , poli a minha superfície que tanto acariciavas e resplandeci para os teus olhos quando eles me pediam ainda mais. Um dia, esqueceste-te de me sorrir. Atrás desse, veio outro e depois outro. Agora estou quieta, silenciosa por fora, numa prateleira do teu quarto, ao lado de todo o pó que me envolve, em alternativa á areia que tão bem me protegia. Sim, olhas para mim todos os dias mas não me vês. Existe uma outra conchinha na tua mesa-de-cabeceira. Cuida dela, mima-a, sente o cheiro do sal ainda presente nas rugas perfeitas. Quando todo o seu brilho ficar baço e te lembrares de limpar o pó ás prateleiras, já estarei longe.
Fui ver o mar…
Escrito por Paulinha eram precisamente 21:46 12 observações
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Passo a passo
Quando eu era muito pequenina gostava de molhar os sapatos nas poças de água e fazer pegadas no chão. Quando já não tinha água suficiente nos pés, voltava, molhava-os outra vez e saltava até ao local onde tinha ficado. Na altura em que me sentia feliz por já ter feito tantas marcas, olhava para trás e via que o sol as tinha enxugado e a minha presença, ali, sem nada com que me ocupar, era o único rasto de mim que alguma vez existira.
Hoje tenho sempre algo para fazer. Os meus sapatos não podem estar molhados porque posso constipar-me e não cumpro com as minhas obrigações diárias. Já não posso estar na estrada porque passam demasiados carros. As mãos não podem ajudar-me a dar o impulso para o salto porque estão ocupadas com livros da escola. E agora já descobri o motivo da evaporação da água. Embora saiba que as pegadas já não podem fazer parte dos meus Invernos, continuo a observar meninos e meninas a fazê-lo.
E já não preciso de olhar para trás porque estou certa de que não vão haver marcas no chão. As verdadeiras pegadas estão no coração daqueles que, por algum motivo, decidiram ficar ao meu lado. E não, essas não se vão evaporar.
Escrito por Paulinha eram precisamente 23:17 12 observações
terça-feira, 8 de abril de 2008
Um dia faço esparguete.
‘’Mãe, bife com arroz? Sabes que eu não gosto nada de bife com arroz!’’ . E no preciso momento ouço um estrondo e sei exactamente de onde vem. Muitos gritos, demasiados choros e sofrimentos complementares. Quem te dera estar aqui, inserida num contexto onde te perdeste outrora, a comer um simples bife com arroz. E eu aqui ao teu lado sinto-me uma inútil por não poder ajudar-te, menina inocente. Enquanto eu estou cansada de tanto estudar, tu estás cansada de tanto gritar por socorro nos devaneios dos teus pais. De ver a tua mãe apontar-te uma faca e dizer que vai matar o teu pai, quando tu sabes que o problema dela é o vinho, aquela substância que tanto temes. Enquanto eu sorrio frente ao computador, tu enches-te de nervos deitada na linha do comboio á espera da morte, com a tua mãe e o teu irmão. Mas mais uma vez tu foste salva, não chegou a tua hora. A hora por que tanto anseias quando te fazem passar por situações que só os teus pais, apenas eles, merecem. Enquanto eu estou numa aula, a escrever sobre ti, tu estás na tua classe a pensar se a tua mãe já está outra vez desmaiada e deixou o teu irmãozinho de quatro anos desesperado. Enquanto eu me queixo de receber tantos telefonemas preocupados da minha mãe, tu só queres que a tua te vá buscar um dia á escola minimamente sã. E enquanto eu como bife com arroz tu estás aí, na casa ao lado, a levar porrada, a ouvir as asneiras que na escola não te deixam dizer, a chamar por ajuda, a tentas fugir para um sítio onde ninguém te encontre. E eu não sei o que fazer. Quem me dera poder mostrar-te um lugar onde tantos contrastes não existam, separados apenas por uma fina camada de cimento. Um dia salvo-te. Enquanto isso, tu vais continuar a sofrer, á espera de uma promessa que nunca te fiz e que eu sei que não vou poder fazer. ‘’Se ao menos eu fosse um bocadinho maior… ‘’ , dizes-me.
Escrito por Paulinha eram precisamente 19:25 15 observações
sexta-feira, 4 de abril de 2008
Três pontos finais, nenhum em ti.
Um vazio. Um vazio que se torna menos oco quando tu estás, umas palavras que se atropelam quando tu falas, uns olhares que se cruzam mas não querem, não importa, disfarçam, disfarçam-se as conversas convenientes, simples, presentes, uma presença notada, quase predominante e o andar predomina, coincide, não pára, não pára, caminha, sempre, em direcção a mim, ao meu rosto, o teu rosto apaixonante que se marginaliza e me cativa, me faz pensar, pensamentos que eu quero desvendar, quero que me reveles, que me consciencializes, uma consciência que tanto tens e gostas, gostas de ter, uns valores que falam por ti, assim, quando tu já nada tens a dizer, e não te calas, falas, falas-me ao ouvido, em segredo, em sonho, em reflexão, em coração, coração de pedra que tu tens, duro, frio, constante, quase não humano, não é humano o que sinto e não posso, não quero, não preciso, preciso sim, preciso de ti, do teu abraço que não me deste, mas dá-mo, dá-mo agora que amanhã podes já não estar, nunca estiveste mas ficaste, tudo foi, tu ficaste, foste ficando em mim, não te perdes, sabes sempre onde me encontrar, morta ou viva porque eu sei exactamente onde tu estás mesmo quando te procuro, por bosques, bosques de segredos que não sei se revelaste mas que te mantêm, não te deixam ir, tu disseste, tu não fechaste a porta, dá-me a chave, a chave do teu coração onde sei que não há fechadura, nunca houve, estás na sombra, és a sombra, que me acompanha, és diferente, é tudo transcendente.
Cansado? Também eu, de ti.
Escrito por Paulinha eram precisamente 20:55 15 observações
segunda-feira, 31 de março de 2008
Quem me viu e quem me vê
Sentada. ‘’A Ponte ’’, de Maria Isabel Barreno acompanha-me. Tento concentrar-me nas combinações de sílabas e mas enquanto o cérebro as junta numa leitura mental, sou baleada por olhares. Olhares apreciadores que não se revelam no meio de olhares postos no que trago no colo. Que mal tem uma jovem a ler numa estação de comboios? Já quase estava concentrada quando oiço conversas paralelas atrás de mim. Um senhora fala ao telemóvel docemente e quando finalmente desliga a chamada reconta-a em forma de troça ao seu acompanhante. A falsidade está em todo o lado, penso. Olho então para o relógio que não está no pulso e que também serve para fazer chamadas. Está na hora de fechar o meu livro e de o guardar na mochila. ‘’Vai entrar na linha número 2 o comboio precedente de Tomar com destino a Lisboa - Santa Apolónia. Efectua paragens em Alverca e Lisboa – Oriente. ‘’ .Está na minha hora. Subo o quase invisível degrau e aconchego-me num pequeno lugar de maneira a poder ficar de frente para a viagem e ao pé da janela. Para a frente é que é o caminho e nunca deixando de observar. Reparo nas distâncias que se estabelecem frequentemente entre pessoas desconhecidas. Num comboio meio vazio (ou meio cheio) como este não existe ninguém acompanhado. Ou talvez exista. Acompanhados pelos seus pensamentos, reflectindo sobre o mal da sociedade ou simplesmente sobre o detergente que irão comprar para lavar o chão. Várias etnias, várias nacionalidades, várias faixas etárias. Porém, todas na mesma direcção. Ilustro assim o conceito de ‘’Todos diferentes, todos iguais. ’’ .O comboio abranda. Os mais prudentes já estão diante da porta de saída quando se ouve ‘’Próxima paragem: Alverca. ’’ . Outros acabaram de se levantar no preciso momento. Ainda tenho alguns minutos. Penso em voltar á minha leitura mas não me apetece. Estou tentada a ficar aqui, a debruçar-me sobre o rumo de todos os passageiros e é o que faço. Dois lugares ao meu lado uma senhora chinesa já fechou os olhos. Do outro lado, alguém me olha indiscretamente mas não quero reparar. Decido perspectivar o mundo lá fora, que também precisa de mim. Passo por uma zona industrial e agonia-me a ideia de saber que preciso de serviços que tanto poluem o ar que vai direito todos os dias aos nossos pulmões. E cá dentro passa o revisor. Farda larga, maduro, provavelmente experiente, O bilhete é apenas solicitado a um senhor que por acaso não tem o melhor aspecto do mundo. Discriminação? Coisas da minha cabeça? Não quero saber. Olho novamente para o relógio, concluindo que devo estar a chegar ao meu destino. Confirmo-o quando vejo que estou a passar por Moscavide, onde avisto um casal de namorados em pura demonstração amorosa. Sorrio por eles e por mim. Que todos os males do mundo fossem esses.
Vou andando até á porta quando finalmente escuto ‘’Próxima paragem: Oriente ’’ . Tomo então consciência dos rascunhos mentais que já fiz em apenas quinze minutos. Ordeno-os e decido que os vou contar ao papel. Abre-se a porta e alguém me espera lá fora. Penso nas pessoas á minha volta. A elas, alguém as esperará?
Desço as escadas e lá estás tu. Serena, a ler um livro, que sei que me vais mostrar quando me sentar ao teu lado. Ainda não me viste. Deixo a minha porta entreaberta para as reflexões particulares. Agora és tu em primeiro lugar.
Escrito por Paulinha eram precisamente 22:02 10 observações
quinta-feira, 27 de março de 2008
De mãos dadas comigo mesma...
Pelo que foi? Não sei, não me perguntem. Como se o mundo inteiro tivesse explicação… É tão mais bonito assim!
O que tem perde o interesse. Descobre-se o motivo pela cabeça de algum génio e assunto encerrado. Enigmas como o desaparecimento dos dinossauros ou a origem da vida continuam a fervilhar na cabeça dos cientistas e nem assim se tornam desinteressantes. Então porque havia eu de ter um motivo? Não tenciono.
Diria que fui assaltada durante a noite. Quando me levantei, não tinha nem metade daquilo com que me deitei. Substituíram-me a boa-disposição pelo mau humor, a paciência pelo desinteresse e a auto-estima pela vergonha. Não podia denunciar o ladrão porque não havia culpado. Se tivesse atribuído culpas, seria mais um mau sentimento a juntar á minha lista negra. Durante as semanas seguintes tudo foi cinzento. Lembro-me de vestir o meu casaco da mesma cor e sentir que estávamos bem combinados. Não me recordo sequer de avistar um raio de sol que me alegrasse. Tudo parecia estar contra mim, quando sabia que eu é que estava contra todos. Sorrisos? Muito raramente. Palavras amigas? Menos de metade. Justificações, onde estavam elas? Pediram-mas e fizeram-me sentir ainda pior. ‘’Porque é que estamos tão diferentes? ‘’. Eu não sabia e para ser sincera nem queria saber. A indiferença era notável e eu já nem de mim gostava. Como poderia gostar dos outros?
Então eu esperei. Esperei no meio de sorrisos superficiais e de choros calados. Ao tempo, chamei-o incansavelmente. Gritei por ele mais do que a minha voz permitia. E ele veio, de mansinho e foi-me devolvendo tudo aquilo que me roubaram.
E hoje estou de volta. Voltei a mim outra vez. Motivos? Não há mas quem precisa deles? Obrigado, ladrão de sonhos e de esperanças, por me fazeres dar valor ás coisas que ás vezes me parecem tão banais.
Obrigado, tempo, pela devolução do sorriso ao acordar, por pensar que vou viver um dia lindo, tão diferente e tão igual a todos os outros.
Afinal, quem sou eu sem mim?
Escrito por Paulinha eram precisamente 12:54 13 observações
terça-feira, 25 de março de 2008
Sonhos traídos
Um aglomerado de matéria orgânica que veio aqui parar não se tem a certeza como e tão pouco se sabe porquê: assim é a nossa espécie. A vida: a incerteza de um dia atrás do outro que a ti já te parecem tão certos e tão iguais. Olho pela minha janela e vejo gente com aspecto de máquinas, treinadas para fazer sempre o mesmo, sempre á mesma hora. Chama-lhe rotina, a mim surge-me como idiotice. Nascemos, crescemos, mudamos, aprendemos a viver em sociedade e lutamos para arranjar um bom emprego que nos ofereça estabilidade. E acabamos todos por ser um par de pernas que andam na face da terra mecanicamente, até que um dia se transformem naquilo de que vieram: pó.
Então eu pergunto: Onde estão os sonhos? Quem somos nós sem os sentimentos, as emoções, as reacções? Quem somos nós sem os sorrisos ou as lágrimas que caem como a noite sobrepõe a alegria de um sol radiante?
E mesmo assim, tu, ser humano, continuas a desvalorizar as pequenas bijutarias que enfeitam a tua rotina diária, que tanto stress te provoca. Mesmo assim, tu continuas a adormecer os teus filhos mais cedo só para poderes trabalhar até mais tarde. Mesmo assim, tu telefonas para casa a dizer que não vais jantar só para poderes trazer mais dinheiro para casa no final do mês. Então eu volto a perguntar: O que são uma centena de euros comparados com a companhia de quem trouxeste ou de quem te trouxe ao mundo? O que é um reles brinquedo ou um estúpido casaco de peles comparado com o abraço de um pedaço de gente?
E, mesmo assim, tu não vês. Não vês ou não queres ver. Tu, que acabaste de ler este texto, vais continuar como sempre estiveste. E amanhã já nem te vais lembrar dele. Custa mudar, não é? Estás demasiado inserido no mundo do consumismo, dos bens materiais. Não sabes o significado da palavra sonho. Para ti, não são mais que simples imagens que perturbam o teu sono. Eu cá (por enquanto) sonho acordada. E sou feliz.
Fecho a cortina. Está a anoitecer muito rapidamente. Já não há nada para ver. Tu, homo sapiens sapiens, nunca hás-de mudar.
Escrito por Paulinha eram precisamente 18:39 13 observações
segunda-feira, 24 de março de 2008
Á terceira é musical! ;) O terceiro...
Um desafio passado pela Su, vindo directamente da sua teia. Consiste em seleccionar seis temas que nos foram importantes ao longo da vida. E aqui estão eles:
Dava tudo para te ter aqui-Adelaide Ferreira
.A minha musica preferida quando tinha os meus 5 anos e a única que me lembro durante toda a minha infância (exceptuando, claro está, o pau ao gato e afins). Estranho, eu sei.
‘’ (...)Sim, é por amor
Que eu me dou sempre mais
Quando me olhas nos olhos
Como quem chama por mim (...)
(...)Eu dava tudo para te ter aqui
Ao pé de mim outra vez (...) ''
Mulher que Deus amou-Valete
.A musica que marcou o meu primeiro grande amor.
’’(...)É um coração que traz palavras para embarcar no flow
É uma mente que fala e já sabe para onde eu vou
Amor que nasce cresce, alma rejuvenesce
Descobri a minha vida, mulher que Deus amou tu és(...)
(...)Durões dizem que não amam porque é sinal de fragilidade
Mas eles são os mais frágeis porque não têm a outra metade
Alimento-me desse sentimento nos sete dias da semana
E todas as semanas vou aumentando quilogramas
Mamma tu és irreal, intangível como um holograma
O cúmulo da utopia de qualquer fêmea humana(...)''
Love show-Skye
.Uma musica que sempre me fez reflectir. Foi com ela que passei bons tempos á beira-mar, recolhendo em mim. Com algumas lágrimas a mistura, também.
‘Sit down, give me your hand
I'm gonna tell you the future
I see you, living happily
With somebody who really suits ya
Someone like me (...)
(...)You don't know
Somebody's aching
Keeping it all in
Somebody won't let go
Of his heart but the truth is
It's painless
Letting your love show(...)''
Don’t kill me tonight-Di-rect
.Porque por mais que a oiça nunca me canso. E já faz parte da minha lista há tempo considerável.
‘’When I’m on the loose It is you who’s shining through and through again
Whenever the rain comes down, the sun turns gray
When I needed you, you were always there
When it comes to you, really nothing can compare
You feel what I feel, know what I know
Even through the darkest night You’ll see what I see
There’s a reason to believe in you and me(...)''
My immortal-Amy Lee
.Acompanhou-me numa fase importante de crescimento interior.
‘’ I'm so tired of being here
Suppressed by all of my childish fears
And if you have to leaveI wish that you would just leave
Because your presence still lingers here
And it won't leave me alone
These wounds won't seem to heal
This pain is just too real
There's just too much that time cannot erase(...)’’
Everything changes-Staind
.Porque a letra não é mais que pura realidade. Minha realidade.
‘’ (...)But everything changes if
I could turn back the years
If you could learn to forgive me then
I could learn to feel(...)
(...)When it's just me and you
Who knows what we could do
If we can just make it through through this part of the day(...)’’
E são estas as mais marcantes, dignas de seis lugares de 'honra'.
Não vou passar o desafio a ninguém em especial porque nem todos fomos acompanhados pela música ao longo da vida. Mas sejam livres para o fazer.
Beijinhos :)
Escrito por Paulinha eram precisamente 20:49 6 observações

